Patas com garras afiadas sobre a grama. Uma leoa caça alimento num planalto, objetivo: nutrir os filhotes. Sua fonte são zebras espalhadas pelo terreno. Os dois recém nascidos ficam em baixo de uma árvore, perto de folhagens, esperando a mãe capturar a comida. Pêlos cinzentos atrás do verde. A leoa dispara e crava os dentes na jugular da vítima. Assustadas, as zebras se afastam. Com sucesso, a vitoriosa traz sua conquista às crias. Percebe que um filhote brinca na grama, afastado. Dirige-se para apanhá-lo. Olhos safira atentos entre as folhagens. Se aproxima da cria e segura-a pela nuca, com os dentes. Boca vermelha de sangue. Ouvindo os sons finos e fracos de raiva do filhote distante, a mãe vê o intruso. Flecha ao encontro dele. A perseguição começa.
Orelhas pontudas curvadas para trás. Raivosamente, a leoa o persegue. Observa o ladrão, é mais veloz que ela. Correndo ferozmente, o felino precipita-se a pôr melhor força nas patas. Uma corrente de ar violenta a puxa para frente, dando-lhe mais velocidade, mas nem perto de seu objetivo. Cauda curta desliza pelas rochas. O predador bate na lateral das pedras varias vezes, não controlando seus movimentos. Um precipício logo à frente. A vitória esta próxima, pensa leoa. Mas se engana, ao ver sua caça cair. Desesperada, a fêmea tenta evitar a queda, sem êxito. Tragada por um furacão, vê sua presa descer velozmente no ar. Despencando na morte, o felino perde seu alimento e vida.
Asas céu direcionadas às montanhas. Dentes com pêlos listrados preto e branco. Língua comprida, gosto de refeição.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Lobo Azul dos Ventos (Criações Literárias)
domingo, 24 de janeiro de 2010
Vida Onírica (Criações Literárias)
Naquela estrada escura
Eu andava solitário
Como um sonâmbolo perdido
No labirinto das trevas.
Aparições surgiam
Ao mesmo instante que desapareciam
Nas janelas entreabertas
De cortinas dançantes.
Tudo era sombrio
E foi quando eu corri
Para a saída,
Corvos e corujas vinham
Corvejando e piando meu nome.
Tudo se foi num tiro
E ouvi gritos de desespero.
Violência, rejeição, ignorância
[me lembrei.
Oh vida! Como queria voltar à avenida fantasma
[pensei.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Kenny no Vale de Açúcar (Criações Literárias)
Não conseguia mais caminhar. Suas pernas vacilavam e apenas conseguia se arrastar pelos grãos de sal, queimando as mãos. A boca do garoto estava tão seca quanto aquele lugar. Já havia viajado quilômetros e nada encontrava além de morros salgados pelo deserto. Não tenho mais esperanças, pensou ele, minha jornada acaba aqui. Quando de repente julgou ter avistado uma fenda no chão a alguns metros de distância. Era uma miragem! Só podia ser uma miragem! Mas não custava nada arriscar, afinal, estava engatinhando desnorteado naquele ermo. A uma distância razoável pôde confirmar que não era uma ilusão, então correu unindo suas últimas forças. Um vale. Seus olhos deslumbravam um vale, talvez o mais delicioso que já vira.
Ao invés de grama havia balas de goma verde pelos campos. Na encosta podia-se ver o brilho do açúcar que descia até lá em baixo, como se fosse cristal num lugar cheio de tesouros. Em árvores com troncos de chocolate cresciam confetes das mais variadas cores. Um rio de creme de leite atravessava o vale, branco como o açúcar. Havia uma ponte de torta de maçã cruzando aquela torrente, com enfeites da fruta inteira nos corrimões. Cogumelos gigantes feitos de marshmallow estavam no sopé do morro e foram nesses que Kenny se atirou desesperadamente para absorver a queda.
Mas aquele lugar não era inabitado. Casas feitas de massa de bolo se espalhavam pelo vale, com tetos de merengue, brancos como a neve. Nos jardins cresciam arbustos de algodão-doce e flores de bala com botões-chiclete. Se encostássemos a mão nas paredes sentiríamos a maciez e o pó da farinha caindo. Quem as habitava eram homenzinhos formados de petit gateau que viviam a serviço de um rei. Sempre iam recolher o creme de leite do rio para tomarem banho em suas moradas. E lá estava um, agachando-se com seu balde de biscoito até a beirada. Apanhou uma boa quantidade do doce, quando avistou uma figura humana correr ferozmente em sua direção. Num ato de desespero jogou o conteúdo do balde no rosto da fera, mas esta tentou engolir o creme loucamente. Era tarde demais, já estava em cima dele e já lhe arrancara uma perna. Kenny podia sentir o chocolate quente derretido em sua boca, descendo pela garganta como água. Enquanto o garoto deliciava aquele pedaço, o pobre homenzinho de chocolate se arrastava pelas balas de goma. Sentiu sua outra perna ser agarrada e então foi mergulhado inteiro no rio de creme de leite. Os outros olharam horrorizados a cena e começaram a correr para fugir daquele monstro.
- Salve-se quem puder! – berravam pelo vale.
Mas não havia jeito; para eles era o fim. Muitos procuravam segurança nas casas, apesar de Kenny comê-las e tudo que estivesse ali dentro. Alguns se atiravam nos poços de mel onde apenas ficavam mais saborosos para serem devorados. As esperanças estavam indo por doce de leite abaixo quando, ao longe, os habitantes podiam ver o marchar dos morangos soldados com suas lanças de puxa-puxa. A batalha foi longa e apetitosa, mas todos foram abatidos e engolidos.
Agora, um enorme castelo de rapadura estava à frente de Kenny e ele sabia que lá dentro havia os tesouros mais preciosos daquele vale. As janelas eram de chocolate branco onde guardas tocavam pirulito no intruso. E este não procurava se desviar, pelo contrario, tentava pegar o máximo que podia. Mais morangos foram abatidos no portão de entrada, sendo interrogados.
- Onde está o rei? Falem ou dou uma dentada em vocês? – ameaçou o garoto.
- Lá em cima, no último andar do castelo. – respondeu um.
- E como ele é?
O morango demorou para responder, mas não agüentou aquele rosto maníaco lhe encarando. – É um bombom (o triplo do nosso tamanho) com uma casca de chocolate recheada com creme de marshmallow. E tem uma coroa de Waffer na cabeça. – Os olhos se arregalaram. Então correu pelas escadas cobertas com açúcar.
Lá estava o rei, sentado em seu waffer em forma de trono, parado como um doce na vitrine de uma loja. Seus guardas chegaram para lhe dar noticias.
- Ele entrou no castelo, majestade! O que devemos fazer?
- Fechem os portões e os tranque. Não deixem que entre aqui!
- Vossa Majestade, é inútil. Ele come os dois: tanto a fechadura quanto a porta.
- Detenham-no de alguma forma!
Então os guardas correram e fecharam as portas. O rei apenas ouviu seus gritos pelos corredores. Um portão foi devorado. E outro, e mais um. Não conseguia mais aguentar aquilo. Foi quando viu as portas se espatifarem, revelando uma figura suja de suco de morango. Bufava como uma besta faminta. Chocolate derretido escorria-lhe pela boca e os olhos se esbugalharam ao ver o rei. Este último deu um grito de desespero, mas ninguém podia ouvi-lo. Seus dias de reinado terminaram e Kenny vinha em sua direção com os dentes afiados.
- Não me devore! – foram as últimas palavras do rei.
O reino foi levado à ruína, assim como todo aquele vale. As árvores nem precisaram ser derrubadas, bastava alguns segundos para desaparecerem. Tanto o rio como os poços de mel secaram. A ponte, o castelo, as casas, tudo sumiu em questão de horas. E então, acabou-se aquele vale, talvez, o mais saboroso que alguém já conhecera.
Eduardo S. Amaro
05/09/04
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Criações Literárias – Dando asas às letras.
Graças à liberdade que a literatura nos proporciona, postarei aqui minhas produções literárias. Tanto contos quanto crônicas. E, se minha criatividade rítmica e musical permitir, postarei também poemas. Apesar de sentir mais intimidade com a prosa, meu desejo é explorar todos os campos da palavra. E aí vai um poema escrito durante minha infância. Um tanto medíocre, mas um poema.
Jardim das letras
Desde manhãs silenciosas
Até canções noturnas,
Floresço junto com este jardim
Repleto de mesinhas de marfim.
Nele não apenas crescem rosas,
E sim, as flores mais variadas.
Nunca se pode descobrir
As cores que vão enfeitá-lo,
Só quando o canteiro se abrir
É que meus olhos poderão deslumbrá-lo.
Para isso, escrevo em folhas de caderno
Dando água à terra sem tinta,
Formando as palavras da vida
E depois, cores múltiplas brotam no canteiro.
É assim que este vergel floresce.
Pouco a pouco, o dia adormece
Já posso ver as flores desabrochando
Na minha frente, protegidas pela cerca.
Mais uma curta poesia acabada,
Mais um pequeno jardim florido.
Eduardo S. Amaro
Referência imagem: A Girl Writing (Browne)