Se as palavras são mais do que um simples conjunto de sons e significados; se além de ouvidas, são sentidas; se podemos aspirar seu aroma e flutuar em sua brisa; se apreciamos seus sabores com os ouvidos; se sentimos o gotejar de cada sílaba poética sobre o lago mais profundo do espírito... e, para ser mais direto e franco, se as palavras são antes de tudo vida, e o desejo pela vida, então, vivamos as palavras de Paulo Autran.
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
Declamação de Paulo Autran (Sobre Literatura)
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Sobre a Morte da Literatura (Sobre Literatura)
“A grande verdade é que vocês chegaram tarde na literatura. Não tem mais o que inventar.”
Estas palavras ficaram gravadas na minha memória desde o dia em que as escutei. Foram ditas numa aula de Escrita Criativa. E o que é mais impressionante: foram expressas pelo próprio professor que nos orientava!
Não são poucos que compartilham essa ideia. Acreditam que o uso das palavras para contar novas histórias imaginadas, para construir edifícios poéticos, já deu para o gasto. A literatura, como arte que sempre permite desvendarmos novos caminhos, é coisa do passado.
Não concordo com esta visão. A música é mais antiga que a literatura. E mesmo assim temos o direito de dizer que nossa geração chegou demasiada tarde? Que não há mais combinações de notas e ritmos a se inventar?! Todos já foram explorados?
Em primeiro lugar, é preciso diferenciar assunto de tema em literatura. Assunto é, digamos assim, a visão aérea daquilo que o autor aborda: conflitos amorosos, a miséria, a escravidão, o modo como agimos subordinadamente em relação às nossas produções tecnológicas, enfim...
Por exemplo, tanto Michael Ende quanto Cornelia Funke abordam o mesmo assunto numa de suas obras: a forte relação entre o leitor e o livro. Nos dois romances A História Sem Fim (Ende) e Coração de Tinta (Funke) abordam o quanto a fantasia e o mundo real se misturam, através do prazer pela leitura. Agora, os temas – o modo como cada autor trata determinado assunto – dos dois livros são completamente diferentes. Enquanto que em História Sem Fim Bastian é transportado da realidade para Fantasia, em Coração de Tinta são as personagens dos livros que saltam para a realidade. Um é o inverso do outro; mas tratam do mesmo assunto.
Assuntos normalmente se repetem, mas a forma como são abordados (tema) é infinitamente diversa. Isso também diz muito com base na conhecida sentença “A obra do autor é o reflexo de sua época”. Toda a arte repousa sobre esta frase.
Dizer que não há mais o que inventar em literatura é o mesmo que dizer:
- Sinto muito... nós paramos no tempo.
Referencia imagem: Books in Winter (Jessie Willcox-Smith)
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
Duas técnicas para o início da escrita (Sobre Literatura)
Minha proposta é apresentar duas técnicas que auxiliam escritores à vencer o tão temido bloqueio criativo, um vilão que faz as pessoas desistirem deste ramo belíssimo que é a literatura. Como toda a técnica, é algo que deve ser treinado. É, de certo modo, uma forma diferente de se relacionar com o texto; um exercício que tem exigido a mim mesmo grande esforço ao apanhar a caneta.
Estas duas técnicas se referem à arte narrativa, independente de qual seja a modalidade: conto, novela, crônica, romance, etc. Vejamos então...
(1) Liberdade na escrita – é comum cairmos por terra depois de escrever duas ou três páginas da nossa história e acharmos um lixo, ao ponto de abandonarmos aquela aventura. Parece tosca, sem graça. Ou até mesmo nem arriscamos escrever sobre um assunto que outras pessoas podem não aprovar. Isso vai totalmente contra a liberdade que uma página em branco e uma caneta cheia de tinta nos proporciona.
Ao escrever uma história, não importa no início se ela está ficando boa ou ruim; se as pessoas vão aprovar ou não. Precisamos ter sempre em mente a liberdade de escrever. De pensar constantemente – quando necessário – enquanto se escreve “Isso que eu escrevi está uma porcaria. Pois muito bem... esse foi o caminho que escolhi. O importante é continuar caminhando, independente do que virá”. É se aventurar nas profundezas da imaginação e trazer a história para a página. Raramente a história que escrevemos sai igual à história que imaginamos. Esta última parece muito mais viva, mais empolgante. Por quê? Por que ela é imaginada, fantasiada. A história escrita se expressa pela palavra. É outra linguagem. Por isso temos que ser livres no início para que ela se expresse à sua maneira. Caso contrário, ela jamais alcançará o mundo.
Ser livre na escrita é escrever uma primeira versão de forma ininterrupta. É na rapidez que vem a sinceridade. Como aconselhava Anton Tchekov “Escreva uma história de um só jorro...”.
Contudo, essa liberdade nos angustia. Parece não ter cuidado com a história; ser desleixado. Mas pelo contrário! Mesmo depois de terminar a primeira versão, precisamos ser livres para poder refazer as partes que consideramos ruim. Mas, no início, a caneta deve dançar sobre o papel assim como dançamos sobre a pista de dança na noite. Não paramos para pensar; simplesmente sentimos a música tocar no corpo.
E por falar em pensar e sentir...
(2) Sentir a história – pensar na história antes de escrever (ou mesmo numa longa pausa) pode ser um obstáculo para seguir adiante. Quando digo “pensar a história” me refiro a intelectualizá-la. É, por exemplo, buscar o significado dos acontecimentos ao invés de se deter nos próprios acontecimentos. O que nos impulsiona a escrever deve ser, antes de tudo, a emoção que sentimos ao percorrer essa trajetória. É entrar na história, descrevendo e narrando tudo que estamos sentindo. Somos narradores que presenciam uma história no mesmo instante que a relatamos. E isso independente se a narração é em primeira ou terceira pessoa.
Não há nada de errado em pensar a história. Isso de fato é importante. Mas no momento em que ela se antepõe ao sentir a história, podemos nos ver sem saída numa contradição de ideias.
Se o que sentimos ao narrar é algo forte, ao ponto de continuarmos escrevendo, muito provavelmente o leitor sentirá algo forte a sua maneira, criando inspiração para continuar lendo.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Sobre Literatura – Indo além da obra.
Postarei aqui reflexões sobre livros de literatura. Meu objetivo é trazer análises de personagens, comparando com a época em que foram criadas, com a vida do autor e a atualidade; estudo dos gêneros literários; teorias de literatura. Além disso, serão apresentados textos sobre criação literária, buscando o aperfeiçoamento nas prosas ficcionais.
Apenas ler literatura talvez não baste. Para que possamos aproveitar ao máximo o texto, devemos refletir: pensar quais as semelhanças com as personagens e nós mesmos; o que a obra diz sobre o mundo e os seres humanos; imaginar as personagens vivendo no mundo real e nos perguntarmos “Seria possível tal personagem existir?”. Devemos transgredir a barreira que separa a realidade da ficção. Talvez, como ocorreu com nosso caríssimo herói Dom Quixote de La Mancha. Contudo, precisamos voltar ao mundo real, coisa que não acontece com este fidalgo. Ele se deixa levar pela paixão pelos livros de cavalaria e, como mostra a gravura acima de Gustav Doré, as criaturas fantásticas se autopermitem sair da sua cabeça e fazer parte de sua realidade.
Referência imagem: Dom Quixote (Doré)